quarta-feira, 23 de junho de 2010

INAUGURAÇÃO DAS SALAS EJA RECOMEÇO NO PRESIDIO DE CATAGUASES

Transcrevo o meu discurso realizado no ato da inauguração das salas de aula no Presidio de Cataguases, em 22/06/2010.
"Projeto EJA RECOMEÇO “Educação de Jovens e Adultos das primeiras series do ensino fundamental”.
Com o apoio da Secretaria Municipal de Educação de Cataguases, que cede material escolar e pedagógico.

Onde conseguimos o apoio do poder Judiciário através do Juiz de Execução Penal
Dr. Mauro Lucas da Silva, que concedia a remição de pena a cada 3 dias estudados diminui 1 dia na pena, de acordo com a LEP (Lei de Execução Penal) isto tem sido um grande incentivo para eles estudarem.

Não fico presa a currículo e grades escolares, já chega as da cadeia, vou ensinando um método que fui acumulando ao longo destes anos de militância com as questões carcerárias.
Nada de ditongo, tritongo, parônimos, homônimos, mas muita leitura e interpretação, discutem fatos reais, simulamos júri, tempestades de idéias, perguntas e respostas com musicas, eles são muito criativos. Para alfabetizá-los utilizo a linguagem intramuros dos cárceres, que é um outro mundo, caneta vira bailarina, banheiro vira boi, a marmitex vira Dalva o copo vira balde e etc...

Foi um duro caminho que tive que percorrer para implantar este projeto, tive que dar aulas durante meses em pé do lado de fora da cela e eles amontoados dentro da cela, para eles escreverem fizemos bancos e mesa de garrafas PET, meu quadro negro era as costas de cartazes e papel pardo.

Os desafios foram muitos, até que mudou a direção da cadeia e fomos para o pátio, quando está chovendo ficamos espremidos em um corredor, mas os frutos valem a pena, tivemos alguns que fizeram concurso público com sucesso, outros estão matriculados em escolas regulares, outros estão freqüentando ONGS que ajudam a libertarem-se da dependência química, motivo que tem trazido muitos para o mundo do crime”.

Hoje passados alguns anos, pois, escrevi isto no início de 2008 para concorrer a uma biblioteca (Ponto de Leitura) junto ao Ministério da Cultura que ganhamos recebemos livros que não tem em nenhuma biblioteca da cidade, livros em braile, dicionários de linguagens de sinais Gibis, um computador mesa e estantes.
Estamos fazendo gestão com a direção do presídio que já esta disponibilizando uma recuperanda para a urgente e imediata utilização dos livros.

E é com muita, mas muita alegria que vemos sonhos serem realizados ao invés de um convênio hoje temos dois convênios em relação a educação, anos iniciais entre SEDS e Prefeitura e anos finais e ensino médio com a Secretária de Estado da Educação.

Contei a história do antes e ainda faltaram muitos sofrimentos por que passamos, e contamos não para mérito próprios, pois isso só quero de Deus, mas falo com os próprios recuperandos que se matricularam este ano, que com este frio com a ducha fria as vezes querem ficar na chamada “jega”, daí relembro que eles tem que valorizar a nossa luta pois quantas vezes eles junto comigo me viram chorar quando chegava um artigo “213, 214”, ou X9 que a própria policia fazia questão de anunciar para o faxina e o faxina gritava “olha o 213 ai gente” daí era um festival de pancadaria e violência, até que de tanto eu pedir eles esperavam eu sair para recomeçar. Quantas vezes esperava a retirada dos presos chegava antes das 8:00 e ficava plantada lá fora no frio no sol até a retirada dos recuperandos, por longas e longas horas.

Quantas vezes sofri a violência de fazer necessidades fisiológicas na própria calça, e ter que pedir roupas intimas para as presas, pois eu era muito gorda comia muito e conclusão... vocês nem imaginam a cadeia toda gritando abre para dona Beth ir no banheiro, e os agentes faziam de surdos e ai que de pirraça demoravam ainda mais, pois eu era um estorvo para a rotina deles.
Quantas vezes sai com a saia suja de menstruação, devido ao longo tempo presa no pátio, mas isso encarava como natural passar por esses vexames, mas não suportava quando eles diziam que eu queria dar boa vida para bandido e outras frases que não valem a pena repetir.

Relembrar isso dói muito, mas como toda dor tem um alivio, chegou a nossa vez de sermos tratadas com dignidade e respeito pelo Estado e pela sociedade que se mobilizou para termos em tempo recorde de 30 a 40 dias duas salas de aulas um banheiro, uma sala de informática e uma biblioteca, construída totalmente com a parceria de pessoas da sociedade que mobilizamos pedindo materiais de construção aproximadamente R$ 4.000,00 ficava o orçamento em uma loja de material de construção, a sociedade se mobilizou e ai esta o fruto da parceria do publico com o privado e também quero agradecer a Deus pela vida dos recuperandos que trabalharam duramente até em finais de semana para que as aulas pudessem começar em fevereiro de 2010.

Houveram inúmeros "ruídos de comunicação" na assunção da SUAPI, em relação a escola foi quando resolvi pedi socorro para o meu eterno Ministro dos Direitos Humanos, Nilmário Miranda para intervir pois quando me disseram que teriam que fazer um túnel para os presos se deslocarem até as salas de aula fui ´parar no Hospital só sai depois de três dias, foram momentos difíceis onde a habilidade da Secretaria Municipal de Educação Rosemere Souza as coisas foram se ajeitando, e hoje vivemos uma “lua de mel”, que espero que seja eterna entre educação e SUAPI, e o Sr. Carlos Roberto Barbosa, a quem quero dar um fraterno abraço, e pedir que ele continue assim zeloso com as coisas do estado que são as coisas do povo e em especial continue carinhoso com os presos.

Obrigado, pelo tratamento com dignidade e respeito que seus agentes dispensam a todos nos professores e professoras, que estamos aqui todos com o mesmo objetivo, o nosso alvo é que diminua a violência e reincidência ao mundo do crime através da educação. Que como dizia Nelson Mandela: “Educação é a mais poderosa arma pela qual se pode dominar o mundo”."

Nenhum comentário: