sexta-feira, 19 de abril de 2013

UMA BIOGRAFIA QUE RECEBI DE PRESENTE

Elizabeth de Almeida Silva, 
entre a utopia e a realidade 

Hon-Fu ,um Filosofo chinês nascido no século V a.C dizia sempre aos seus alunos ,que as pessoas se tornam especiais nos lugares e dos corações onde menos imaginam .Uma vez que não somos amados por aqueles que desejamos ,mas pelos que nos valorizam.
Este pensamento budista milenar que sobreviveu a evolução da própria filosofia oriental sintetiza em sua profundidade, a história de uma amiga que a muito sinto a necessidade de homenageá-la.

Elisabeth de Almeida, mais conhecida popularmente como irmã Bethe é natural do município de Leopoldina, Minas Gerais, mas viveu um período de sua vida em São Paulo . Nesta cidade casou-se teve dois filhos,  trabalhou por um tempo como bancária e filiou –se ao partido dos Trabalhadores .
Muito sensível ao sofrimento alheio, Bethe desde a juventude participou de projetos sociais e muitas vezes teve que deixar os filhos aos cuidados de amigos e parentes para cumprir a sua jornada como voluntária .
As suas criticas as desigualdades sociais motivaram-na a cursar Direito e ser mais atuante no partido. 
Mas as decepções que sofreu ao longo de sua jornada, seja como o seu marido e os seus companheiros de luta, os camaradas, levaram-na a buscar na fé, forças para recomeçar .

A sua persistência em amparar e acolher o outro contribuíram para que ela alcançasse o caminho mais bonito, que no Budismo denominamos como o estado holístico .É uma virtude que poucos, pouquíssimas pessoas desenvolvem ,a compreensão e amor ao próximo de forma incondicional .

A educação prisional é o elemento holístico na vida desta guerreira,  que durante anos reivindicou as comissões de Direitos Humanos, aos representantes dos três poderes, um projeto educacional na unidade de Cataguases.

Neste local, suportando as adversidades politicas e ambientais impostas por aqueles que não percebem que juridicamente, mesmo acautelado, o preso possui direitos, ela plantou as primeiras sementes de uma educação humanística.
Atualmente, o projeto encontra –se estruturado sendo administrado pela Secretaria de educação mineira, mas a escola ficou sem cor, pois irmã Bethe nos deixou e sua presença alegre e divertida irradiava na aura espiritual com vários feixe de cores.

Não há um cartaz na escola que mencione a sua jornada ,mas no meu coração e dos alunos que sempre hão de amá-la , ela estará bem guardada no centro da nossa memoria permanente ,pois suas lembranças fazem nos acreditar, que o Brasil será um dia a nação arco íris, como Mandela desejou transformar a África do Sul.

Atualmente, Elisabeth continua na educação prisional na cidade de Leopoldina e atuando como tutora presencial deste curso,Multimeios didáticos pelo IFET de Juiz de fora entre outras atividades.

Luciana Nazar

Luciana obrigada pela sua sensibilidade e grande carinho que sempre demonstrou  com os projetos sociais e com seus colegas de trabalho.
Voce é muito especial aprendi a amar ainda mais a educação e trilhar novos caminhos te vendo caminhar, voce é daquelas mestras que aluno jamais esquece pela sua coerencia e senso de amor e justiça. 
Estou publicando porque fiquei encantada, não sabia que voce sabia tanto de mim. 
Isso aumenta ainda mais a minha responsabilidade.  
Deus seja louvado pela sua vida.

terça-feira, 9 de abril de 2013

Nota de Esclarecimento e Repúdio Quanto a Suposta Maldição sobre Negros e Africanos

A Aliança Evangélica vem a público para repudiar o uso inadequado das Escrituras Sagradas, a Bíblia, juntamente com as interpretações e afirmações daí decorrentes, especificamente as feitas quanto a supostas maldições existentes sobre africanos e negros.

Afirmações desta natureza são fruto de leitura mal feita de parágrafos bíblicos, tomados fora do seu contexto literário e teológico, que acabam por colaborar com os interesses de justificar pensamentos e práticas abusivas, contrárias ao espírito da Palavra de Deus, cujo foco está na Justiça, na Libertação e na promoção da Vida e Dignidade Humana.
O texto em questão, que tem servido de pretexto para declarações insustentáveis, tanto em púlpitos, redes sociais, na tribuna do Parlamento e até protocoladas junto à Justiça Federal, sob o manto da imunidade parlamentar, versa sobre o significado da passagem bíblica encontrada no Livro de Gênesis capítulo 9, versos 20 a 27.
Nessa passagem Noé, embriagado, despe-se e assim é surpreendido por seu filho Cam que, ao invés de manter a discrição e o respeito devidos ao pai, o anuncia aos seus irmãos; estes se recusam a ver o pai nesse estado e, sem olhar para ele, cobrem-no com uma manta. Desperto Noé, ao saber da postura de seu filho Cam, amaldiçoa seu neto Canaã, filho de Cam, destinando-lhe a servidão.
O equívoco em questão dá a entender que a maldição proferida pelo patriarca bíblico contra Canaã, seu neto e filho de Cam, atinge os seres humanos de tez negra que habitaram, originariamente, o continente africano, o que explicaria os vários infortúnios em sua história passada e presente, culminando no longo período em que foram feitos escravos no Ocidente; e que o ato de Cam em ver a nudez de seu pai, mais do que um desrespeito, indica um ato de violação sexual por parte de Cam.
Queremos salientar enfática e categoricamente:
Primeiro, Cam teve outros filhos: Cuxe, Mizraim e Pute, e somente Canaã foi amaldiçoado. 
Segundo, embora o comportamento inadequado descrito no texto bíblico tenha sido o de Cam, filho de Noé, o objeto específico da maldição foi Canaã, o neto de Noé. [Segundo Orígines, um dos pais da Igreja, do sec. III, Canaã foi quem avisou seu pai sobre a situação do seu avô, publicando o que deveria ter mantido sob reserva]. Amaldiçoar, no senso bíblico,  não determina a história, mas descreve a consequência da quebra dum princípio estabelecido pelo ato desrespeitoso; portanto, significa a percepção de efeitos e desdobramentos de um comportamento específico. Ou seja, a postura de Cam e de seu filho Canaã estabelece um padrão comportamental que resultaria numa situação de inversão paradoxal, onde alguns dentre os descendentes de Canaã se tornariam dominados e serviçais dos seus irmãos.
Terceiro, Canaã, neto de Noé, foi habitar e estabeleceu-se na região a oeste do rio Jordão, até a costa do Mediterrâneo (sudoeste da Mesopotâmia), onde os descendentes de Canaã desenvolveram práticas absurdas, inclusive o sacrifício de crianças, e não no continente africano!
Quarto, é de entendimento entre os teólogos especialistas no Velho Testamento que a maldição profética de Noé sobre Canaã foi cumprida quando da conquista da região povoada pelos descendentes de Canaã, os cananeus, por parte dos filhos de Jacó, sob o comando de Josué há mais de três milênios.
Quinto, a maldição proferida sobre Canaã pelo seu avô Noé significou uma percepção e discernimento sobre uma tendência comportamental de um grupo humano, antevendo o resultado de uma corrupção cultural e civilizatória específica e localizada, e em consequente servidão, e de modo nenhum faz referência à cor da sua pele.
Sexto, não há nada, absolutamente nada, nem neste texto bíblico em foco nem na Escritura como um todo, que indique qualquer maldição sobre negros e africanos, e muito menos algo que justifique a escravidão.
Sétimo, o texto bíblico precisa ser lido em seu contexto imediato e considerado à luz da totalidade da Escritura, como saudáveis práticas de interpretação bíblica nos ensinam. De acordo com o próprio capítulo 9 de Gênesis, verso 1 e seguintes, é indicado que o desejo de Deus e sua promessa visam abençoar, dar vida, alimento e todo o necessário para o desenvolvimento de todos os descendentes de Noé, seus filhos e de toda a família humana. A declaração divina de abençoar a Noé e seus descendentes é firme e abrangente, e não pode ser contestada ou reduzida pela declaração relativa e descritiva de Noé a respeito de seu neto.
Oitavo, Deus reafirma o desejo de abençoar a toda a humanidade, a todas as famílias da terra, raças e etnias no episódio descrito na sequência da narrativa bíblica, quando da vocação de Abrão (Genesis 12), intenção que tem seu ápice e culminância na pessoa, vida e ministério de Jesus e continuado em curso na Igreja. Em Cristo, toda maldição é destruída e uma Nova Criação é estabelecida, sendo chamados a participar deste novo concerto todas as nações, etnias, raças, povos e famílias de todas as terras e da Terra toda, sendo revogadas assim todas as maldições e oferecida salvação a todas as pessoas.
Nono, a alegada violação sexual de Cam a Noé não é sustentada pelo texto. A citação do texto da lei de Moisés que chama a violação de descobrir a nudez não dá suporte a tal alegação, uma vez que os verbos usados são diferentes na raiz e no significado: no primeiro caso, trata-se de observação a distância; e, no segundo caso, trata-se de ato deliberado contra outrem.
Décimo, toda vez, na história, que esse texto foi aventado a partir dessa hipótese vulgar, tratou-se de ato de má fé a serviço de interesses escusos, seja quando usado para justificar a escravidão de ameríndios no Brasil colonial, seja quando usado para justificar a escravidão dos africanos de tez negra, seja quando utilizado para a elaboração de sistemas legais de segregação social como o que ocorreu nos Estados Unidos, seja quando usado para justificar a política nefasta e mundialmente condenada do apartheid.
Tal leitura equivocada da Escritura corre o risco de ser vista como suspeita de esconder outros interesses de natureza política, econômica e de dominação social e religiosa. Não há nenhum apoio bíblico para defender qualquer maldição sobre negros ou africanos, que fazem parte, igualmente e em conjunto, da única família humana.
Lamentamos o equívoco provocado por tal vulgarização do texto bíblico, bem como a banalização quanto ao conteúdo de nossa fé, assim como repudiamos qualquer tentativa, intencional ou não, de uso inadequado do texto para quaisquer fins que não o de promover a vida, a libertação e a justiça, como a própria Escritura expressa muito bem.
Brasil, 07 de abril de 2013
Aliança Cristã Evangélica Brasileira

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Já leu a sua Bíblia hoje?

Um discípulo chegou para seu mestre e perguntou:

- Mestre, por que devemos ler e decorar a Bíblia se nós não conseguimos
memorizar tudo e com o tempo acabamos esquecendo? Somos obrigados a constantemente decorar de novo o que já esquecemos.

O mestre não respondeu imediatamente ao seu discípulo.
Ele ficou olhando para o horizonte por alguns minutos e depois ordenou ao discípulo:

- Pegue aquele cesto de junco, desça até o riacho, encha o cesto de água e traga até aqui.
O discípulo olhou para o cesto sujo e achou muito estranha a ordem do
mestre, mas, mesmo assim, obedeceu. Pegou o cesto sujo, desceu os cem
degraus da escadaria do mosteiro até o riacho, encheu o cesto de água e começou a subir de volta.
Como o cesto era todo cheio de furos, a água foi escorrendo e quando chegou até o mestre já não restava nada. O mestre perguntou-lhe:

- Então, meu filho, o que você aprendeu?
O discípulo olhou para o cesto vazio e disse, jocosamente:
- Aprendi que cesto de junco não segura água.
O mestre ordenou-lhe que repetisse o processo de novo.
Quando o discípulo voltou com o cesto vazio novamente, o mestre
perguntou-lhe:

- Então, meu filho, e agora, o que você aprendeu?
O discípulo novamente respondeu com sarcasmo:

- Que cesto furado não segura água.
O mestre, então, continuou ordenando que o discípulo repetisse a tarefa.
Depois da décima vez, o discípulo estava desesperadamente exausto de tanto descer e subir as escadarias.
Porém, quando o mestre lhe perguntou de novo:

- Então, meu filho, o que você aprendeu?
O discípulo, olhando para dentro do cesto, percebeu admirado:

- O cesto está limpo! Apesar de não segurar a água, a repetição
constante de encher o cesto acabou por lavá-lo e deixá-lo limpo.
O mestre, por fim, concluiu:
- Não importa que você não consiga decorar todas as passagens da

Bíblia que você lê, o que importa na verdade, é que através deste processo a sua mente e a sua vida ficam limpos diante de Deus.
Já leu a sua Bíblia hoje?
Não deixe de ler a Palavra de Deus!!!

"Faze-me saber os Teus caminhos, Senhor, ensina-me as tuas veredas..."
Salmos 25:4

Fonte Site: Gotas de Bençãos

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

A cor dos homicídios no Brasil

Entre 2002 e 2010, o país apresentou uma inquietante tendência de aumento da distinção entre negros e brancos nos índices de mortalidade. Se os dados globais de homicídio mudaram pouco nesse período, em torno de 27 para cada 100 mil habitantes, foi em razão da queda dos homicídios brancos e crescimento dos negros
por Julio Jacobo Waiselfisz
O Brasil está cada dia mais longe de manifestar respeito a um direito essencial, que é o direito à vida e à segurança sem distinção de raça ou cor, proclamado pela Declaração Universal dos Direitos Humanos.

O Sistema de Informações de Mortalidade do Ministério da Saúde, construído com base nos padrões internacionais da Organização Mundial da Saúde, é a única fonte que temos disponível, até os dias de hoje, que verifica em nível nacional o quesito raça/cor das vítimas de homicídio. Esse item só foi incorporado em 1996, mas nos primeiros anos de vigência seu preenchimento foi muito deficitário, melhorando de forma progressiva. Assim, a partir de 2002, quando a identificação da raça/cor já estava na casa de 92%, pudemos considerar os dados suficientemente confiáveis para iniciar as análises sobre o tema. O último dado divulgado, até o momento, corresponde ao ano de 2010.

Segundo os registros desse sistema, entre 2002 e 2010 morreram assassinados no país 272.422 cidadãos negros, o que dá uma média de 30.269 assassinatos por ano. Só em 2010 foram 34.983. Na cruenta Guerra do Iraque, as estimativas mais elevadas indicam que de 2003 até fins de 2009 morreram 110 mil pessoas, incluindo civis, o que significa 15,7 mil por ano. No Brasil, país que não aparenta ter conflitos étnicos, religiosos, de fronteiras, raciais ou políticos, morre assassinado o dobro de cidadãos negros todos os anos e mais do triplo – 52.260 em 2010 – de seus habitantes de todas as raças e cores.

Embora os números sejam preocupantes, inquieta mais ainda a tendência crescente dessa mortalidade discriminante. Se os índices globais de homicídio do país nesse período mudaram pouco, em torno de 27 homicídios para 100 mil habitantes, foi em razão de uma associação inaceitável de queda dos homicídios de brancos e crescimento dos homicídios de negros:

• Considerando o conjunto da população, entre 2002 e 2010 o número absoluto de vítimas brancas de homicídio caiu de 18.867 para 14.047, queda de 25,5%. Já as vítimas negras cresceram de 26.952 para 34.983, incremento de 29,8%.

• Com isso, o índice de vitimização negra na população total, que em 2002 era 65,4% – morriam assassinados, proporcionalmente, 65,4% mais negros que brancos –, em 2010 pulou para 132,3%.

• As taxas de vítimas entre os jovens negros – 15 a 29 anos de idade – duplicam, ou mais, os da população total. Assim, em 2010, se a taxa de homicídio da população negra foi de 36 em 100 mil, a dos jovens negros foi de 72 para 100 mil.

• Com isso, a vitimização de jovens negros, que em 2002 era de 71,7%, em 2010 pulou para 153,9% – morrem, proporcionalmente, duas vezes e meia mais jovens negros que brancos.

• Os dados também apontam que essa vitimização negra está crescendo de forma rápida e preocupante por suas implicações sociais e políticas.
Esse é o panorama nacional, a média do país. Mas, se olharmos para as unidades da federação e, mais ainda, para os municípios, veremos situações extremas que deveriam ser fonte de séria atenção:

• Seis estados apresentaram, em 2010, taxas de homicídio acima de 50 para 100 mil negros: Alagoas, Espírito Santo, Paraíba, Pará, Pernambuco e Distrito Federal.

• Oito unidades ultrapassaram a marca dos 100 homicídios para 100 mil jovens negros: Alagoas, Espírito Santo, Paraíba, Pernambuco, Mato Grosso, Distrito Federal, Bahia e Pará.

• Na Paraíba, em 2010, foram registrados 47 homicídios brancos e 1.335 homicídios negros. Considerando as respectivas populações, a taxa de homicídios brancos foi de 3,1 para 100 mil brancos contra 60,5 para 100 mil negros. Dessa forma, o índice de vitimização negra foi de 1.824: para cada branco morreram, proporcionalmente, dezenove negros.

• Diversos especialistas estabelecem que níveis acima de 10 homicídios para 100 mil habitantes caracterizam situação de violência epidêmica. Todos os estados brasileiros superam esse patamar. As unidades com as menores taxas de homicídios negros em 2010, Santa Catarina e Piauí, ostentavam, respectivamente, 13,3 e 15 homicídios para 100 mil negros.

• A heterogeneidade de situações torna-se ainda maior quando desagregamos os dados para os municípios do país, com casos extremos como o de Ananindeua, no Pará, onde em 2010 foram registrados 33 homicídios brancos e 705 negros, o que origina taxas de 29,3 homicídios para 100 mil brancos e 198,8 homicídios para 100 mil negros. No outro extremo, 2.936 municípios – 52,8% do total nacional – não registraram nenhum homicídio negro em 2010.

• Não muito diferente é o panorama de algumas capitais do país, como João Pessoa (PB), onde, em 2010, foram assassinados 16 brancos e 545 negros, taxas de 4,9 homicídios brancos e 140,7 negros. Ou Maceió (AL), com 17 vítimas brancas e 774 negras.
Dois fatores devem ser mencionados para a compreensão da situação. Em primeiro lugar: a crescente privatização do aparelho de segurança. Como já ocorrido com outros serviços básicos, como a saúde, a educação e, mais recentemente, a previdência social, o Estado vai se limitar a oferecer, para o conjunto da população, um mínimo – e muitas vezes nem isso – de acesso aos serviços e benefícios sociais considerados básicos. Para os setores com melhor condição financeira, serviços privados de melhor qualidade. Com a segurança vem ocorrendo esse processo de forma acelerada nos últimos anos. A pesquisa domiciliar do IBGE de 2011 é clara sobre as possibilidades diferenciais de acesso a serviços privados de melhor qualidade: as famílias negras tinham uma renda média de R$ 1.938,19, e as brancas, de R$ 3.183,07, isto é, 64,2% a mais.
Em segundo lugar, e reforçando o anterior, as ações de segurança pública distribuem-se de forma extremamente desigual nas diversas áreas e espaços geográficos, priorizando sua visibilidade política e seu impacto na opinião pública e, principalmente, na mídia. Assim, em geral áreas mais abastadas, de população prioritariamente branca, ostentam os benefícios de uma dupla segurança, a pública e a privada, enquanto as áreas periféricas, de composição majoritariamente negra, nenhuma das duas.

A Declaração Universal dos Direitos Humanos, pedra fundamental de nossa moderna convivência, estabelece que: “Toda pessoa tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal [...] sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição”. Temos ainda um longo caminho para tornar realidade esse direito fundamental proclamado em 1948.

Julio Jacobo Waiselfisz
Coordenador da Área de Estudos da Violência da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso) e pesquisador do Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos (Cebela).


terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Presos terão direito a 90 mil vagas em cursos técnicos até 2014

Acordo entre pastas da Educação e Justiça foi assinado nesta quinta (7).  Objetivo é a ressocialização, disse o ministro Aloizio Mercadante.

O Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec) vai destinar 90 mil vagas para pessoas privadas de liberdade que cumprem pena nos regimes aberto, semiaberto, fechado e de prisões provisórias, além daquelas que já cumpriram as penas previstas. O acordo foi assinado na manhã desta quinta-feira (7), em Brasília, pelos ministros da Educação, Aloizio Mercadante, e da Justiça, José Eduardo Cardozo.
A previsão é ofertar 35 mil neste ano e chegar ao total de 90 mil até 2014 para cursos técnicos e de formação continuada. O investimento será de R$ 180 milhões.
Segundo Mercadante, há interesse da população carcerária em estudar, já que 26 mil presos fizeram o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) no ano passado. "63% dos presos não têm ensino fundamental completo. Vamos dar ênfase ao ensino tecnológico porque abre mais perspectiva de ressocialização e chance de encontrar um emprego."


As vagas serão oferecidas segundo encaminhamento feito pelo Ministério da Justiça. Não haverá cotas no programa. "Mas se você entender cota como pobre e negro da escola pública, é 100%", declarou o ministro da Educação.
De acordo com o Ministério da Justiça, a pasta já elaborou nota técnica para que a cada doze horas estudadas haja o abatimento de um dia de pena. "Isso implica na redução de custos para o estado”, disse o diretor do Departamento Penitenciário Nacional, Augusto Eduardo de Souza Rossini.
“Estamos buscando estimular um caminho de ressocialização dos presos. O nível de reincidência do crime e extremamente elevado no Brasil. A formação tecnológica profissional traz oportunidades”, disse Mercadante.
O ministro Aloízio Mercadante informou que será necessário construir 760 salas de aula dentro dos presídios. Atualmente, há mais de 500 mil presos no Brasil, sendo 94% em presídios masculino. Há 1340 presídios masculinos e 80 femininos.Do total de presos, 75 mil estão em regime semiaberto.  Mais da metade são jovens entre 18 e 30 anos.

Bolsa para filhos de policiais
O ministro também informou que o governo está formulando projeto para garantir a conclusão dos estudos de filhos de policiais e agentes penitenciários mortos em serviço, com acesso irrestrito ao Prouni. Segundo Mercadante, ainda estão sendo levantados dados sobre a quantidade de pessoas que deverão ser beneficiadas e se haverá necessidade de aprovação de projetos no legislativo.

“Temos obrigação de garantir bolsa a todos os filhos de policiais brasileiros assasinados de forma covarde. Os filhos vão estudar até quando quiserem e o Estado vai garantir”, afirmou Mercadante.

Nosso desejo é de que este brilhante e tão esperado acordo, saia do papel e ganhe vida!
Ha! como ansiamos por esta iniciativa, VIVA!

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Tortura como cisão de corpo e mente

Tortura como cisão de corpo e mente

Leonardo Boff*
Com o funcionamento da Comissão Memória e Verdade vem à tona com toda a sua barbárie a tortura como método sistemático do Estado ditatorial militar de enfrentar seus opositores. Já se estudaram detalhadamente os processos de desumanização do torturado e também do torturador. Este precisa reprimir sua própria humanidade para praticar seu ato desumano. Não sem razão que muitos torturadores acabaram se suicidando por não aguentarem tanta perversidade.

Quero, entretanto, destacar um ponto nem sempre suscitado na discussão que foi muito bem analisado pelos psicanalistas, especialmente na Alemanha pós-nazista e entre nós por Hélio Peregrino, já falecido. O mais terrível da tortura política é o fato de que ela obriga o torturado a lutar contra si mesmo. A tortura cinde a pessoa ao meio. Coloca a mente contra o corpo. A mente quer ser fiel à causa dos companheiros, não quer, de forma alguma, entregá-los. O corpo, submetido à extrema intimidação e aviltamento, para ver-se livre da tortura, tende a falar e assim a fazer a vontade do torturador. Essa é a cisão.
Mas há um ponto a se ressaltar: a pessoa torturada quando levada ao pânico e ao pavor pode ser vítima de mecanismos inconscientes de identificação com o agressor. Ao identificar-se com ele, consegue psicologicamente exorcizar, por um momento, o pânico e assim sobreviver.
O torturado, que sucumbiu a esta desesperada contingência de autodefesa, incorpora sinistramente a figura do torturador. O torturador consegue abrir uma brecha na alma do torturado, alcança penetrar naquela última intimidade, lá onde moram os segredos mais sagrados e onde a pessoa alimenta seu mistério. Ultrapassa, portanto, os umbrais derradeiros da profundidade humana, para possuir a vítima e fazê-la um outro, alguém que acaba reconhecendo ser de fato subversivo, inimigo da pátria e da humanidade, um traidor da religião, um amaldiçoado por Deus, um excomungado da Igreja, alguém da parte do demônio.

Os torturadores Albernaz e Fleury eram peritos nesta perversidade. Fleury disse diretamente ao frei Tito, como aparece no terrificante filme de Ratton Batismo de sangue, baseado no livro de Frei Betto com o mesmo nome, que deixaria nele marcas que jamais esqueceria. Efetivamente, conseguiu cindir-lhe a mente e o corpo e penetrar na sua mais profunda intimidade a ponto de ele, no exílio na França, sentir a todo momento a presença de seu algoz. Deixou um bilhete antes de tirar-se a vida: "Prefiro tirar minha vida a morrer".

Este tipo de tortura é especialmente perverso porque faz da desumanização o eixo de uma prática sistemática de agentes do Estado. Se a categoria anti-Cristo ainda significa alguma coisa, ela deve
ser configurada dentro deste quadro infernal. Trata-se da completa subversão do humano e de suas referências sagradas. É seguramente um dos maiores crimes de lesa-humanidade que possam existir. Tais perversidades não podem cair sob anistia nenhuma. Os torturadores carregam em sua alma e em sua mente-testa o estigma de Caim. Por onde andarem, a vida os acusará porque violaram a sua suprema sacralidade.

E há ainda a tortura dos desparecidos, crucificando seus entes queridos. Por exemplo, houve uma guerrilha do Araguaia, até hoje não reconhecida totalmente pelos militares. Lá se cometeram todos os excessos: cortaram a cabeça e os dedos dos guerrilheiros mortos e os enviavam a Brasília para reconhecimento. Sumiram com seus cadáveres. Fizeram desparecer as vidas e pretendem agora apagar as mortes. E as famílias carregam um pesadelo que não tem fim. Cada campainha que toca em casa funciona como um vento a soprar as cinzas e reanimar a brasa da esperança, seguida de amarga decepção: "Será que não é ele que está chegando?" Outros dizem: "Não mudemos de casa porque ele pode ainda chegar... e se nós não estivermos mais aqui para o abraço, o beijo, as lágrimas...que será dele?"

Os torturadores e seus mandantes estão aí, agora ameaçados pelo esculacho do movimento Levante Popular da Juventude, que não lhes deixa a consciência descansar. A estes, quisera eu, como teólogo, perseguido, mas não torturado, gritar-lhes ao ouvido o clamor de Jesus Cristo: "Da vossa geração será pedida a conta do sangue de todos os profetas, dos perseguidos e dos torturados, sangue derramado desde o princípio do mundo. Sim, vos asseguro que vos será pedida a conta deste sangue" (Lc 11,50-51).

Poderá haver anistia pactuada dos homens. Mas não haverá anistia perante a consciência e perante aquele que se apresentou sob a figura de um preso, torturado, executado na Cruz, Jesus, o Nazareno, feito Juiz Supremo, que julgará especialmente aqueles que violaram a humanidade mínima. Chegará o dia, supremo dia, em que todos os desparecidos aparecerão. Eles virão, como diz o Apocalipse, da grande tribulação da história. Sim, eles voltarão junto com o Vivente. E então não haverá mais espera nem palpitação dos corações. O Vivente, também um dia torturado, anulará todas as distâncias, enxugará todas as lágrimas e inaugurará o Reino dos sacrificados e desaparecidos, agora vivos, libertos e encontrados. Então será definitivamente verdadeiro:Nunca mais uma ditadura. Nunca mais desaparecidos. Nunca mais a tortura.
* Leonardo Boff, teólogo e filósofo, é escritor. -lboff@leonardoboff.com

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Chapeuzinho Vermelho, a midia e as Igrejas.

Chapeuzinho Vermelho, a midia e as Igrejas.

Chapeuzinho Vermelho e a mídia:

Jornal Nacional
'Boa noite. Uma menina foi devorada por um lobo na noite de ontem...' '...mas a atuação de um lenhador evitou a tragédia.'

Programa da Hebe
'...que gracinha, gente! Vocês não vão acreditar, mas essa menina linda aqui foi retirada viva da barriga de um lobo, não é mesmo?'

Cidade Alerta
'...onde é que a gente vai parar, cadê as autoridades? A menina ia pra casa da vovozinha a pé! Não tem transporte público naquele trajeto! E foi devorada viva...um lobo, um lobo safado. Eu falo mesmo...deixa eu falar...dá licença!!! Eu vou falar e pronto, não tenho medo de lobo, não! Põe na tela.
Superpop
'Geeente! Tô passada! Tô aqui com a ex-mulher do
lenhador e ela disse que ele é alcoólatra, agressivo e que não paga pensão pros filhos há mais de um ano.
Abafa o caso!'

Repórter (Chamada do programa)

'Tara? Fetiche? Violência? O que leva alguém a comer, na mesma noite, uma idosa e uma adolescente? O Globo Repórter conversou com psicólogos, antropólogos e com amigos e parentes do Lobo, em busca da resposta. E uma revelação: casos semelhantes acontecem dentro dos próprios lares das vítimas, que silenciam por medo. Hoje, no Globo Repórter.'

Discovery Channel
'Hoje vamos mostrar se é possível uma pessoa ser engolida viva e sobreviver.'
Revista Veja
'Dilma sabia das intenções do Lobo.'
Revista Cláudia
'Como chegar à casa da vovozinha sem se deixar enganar pelos lobos no meio do caminho.'
Revista Isto É
'Gravações revelam que lobo foi assessor de político influente.'
Revista Caras (Chapeuzinho na banheira de hidromassagem na semana seguinte ao acontecimento)

'Até ser devorada, eu não dava valor pra muitas coisas na vida. Hoje, sou outra pessoa.'
Revista Superinteressante 'Lobo Mau: mito ou verdade?'

Revista Tititi
'Lenhador e Chapeuzinho flagrados em clima romântico em jantar no Rio.'

Folha de São Paulo (exibe uma foto onde Chapeuzinho aperta a mão do seu salvador)
'Na matéria, box com um zoólogo explicando os hábitos alimentares dos lobos e um completo infográfico mostrando como Chapeuzinho foi devorada e depois salva pelo lenhador.
O Globo
'Petrobrás apóia ONG do lenhador ligado ao PT, que matou um lobo para salvar menor de idade carente.'

Extra
'Promoção do mês: junte 20 selos mais R$19,90 e troque por uma capa vermelha igual a da Chapeuzinho!'

Chapeuzinho Vermelho e as Igrejas:
Universal
(cantor): 'Ao findar o labor dessa vida...'
(Bispo Macedo repetindo) : 'Ao findar o labor dessa vida...'
(cantor): 'quando a morte ao teu lado chegar...'
(Bispo repetindo): 'quando a morte ao teu lado chegar...'
(cantor): 'que destino há de ter a tua alma...'

(bispo repetindo): 'que destino há de ter a tua alma...'
(cantor): 'qual será no futuro teu lar?'
(bispo repetindo): 'qual será no futuro teu lar?'
(cantor): 'meu amigo, hoje tu tens a escolha...'
(bispo): 'meus amigos e minhas amigas, agora nós vamos demonstrar para vocês se o diabo é forte mesmo.
De joelho, Lobo Mau...agora! Você é forte? A quantos anos você está na vida dela?


RR Soares
'Amém, pessoal? Vamos dar a Jesus uma linda salva de palmas. Vamos orar...Pai, eu amaldiçôo a gula desse Lobo Mau.'

Ap. Valdemiro Santiago (Chorando e fungando)
'A Grobo tá dizeno (snif) "ele num vai pá frente", mais olha isso aqui...esse tempro cheio (snif) essa multidão...eu falo e provo (snif)...vem cá, minha vovó.
Vovó sobe no palco de toalhinha ungida na mão e se enfia no sovaco de Valdemiro. Ambos choram.

Valdemiro - Conta, vózinha, o que Jesuis fez na tua vida DEPOIS que você levou a toalhinha ungida do apóstolo pra casa.
Vovó detalha o salvamento da neta e diz que foi no dia da Santa Ceia da Justiça
Valdemiro: Aí é forte demais, glorifica de pééééééé...dá seu trízimooo.'


René Terranova (olhando penetrantemente para o povo - ao seu lado, Chapeuzinho e Lenhador)
'Esta garotinha, cujo nome de batismo é Rosemary, conhecida por Chapeuzinho Vermelho devido à surrada túnica vermelha que usou todos os invernos durante seus 8 anos de vida, vem hoje desvencilhar-se desse decreto.
De hoje em diante ninguém mais a chamará Chapeuzinho, pois Yeshua lhe dá restituição da identidade.
(Delírio da multidão)
(Vira-se para a garotinha) - E eu, seu Paipóstolo, te chamei aqui para que tu seles este momento profético, dando honra profética a este humilde lenhador através do ato profético de depositar proféticos R$ 10.000,00 aos meus pés.'
(Delírio da multidão)

SILAS MALAFAIA
Queridos é brincadeira o que este lobo aprontou, o povo de Deus nao pode ficar enganado! Eu nao tenho medo de falar este lobo era homo.irch!

fonte: http://pastoragente.blogspot.com.br/2011/06/chapeuzinho-vermelho-midia-e-as-igrejas.html
E mais alguns acrescimos por minha conta,
Se voce gostou e conhece alguma liderança, inclua e me envie ok

sábado, 10 de novembro de 2012

Procurador da Justiça encoraja as igrejas a ajudarem o Brasil a encarar seu passado

O procurador de justiça Dr. Marlon Weichert, proeminente defensor dos direitos humanos no Brasil, visitou o Conselho Mundial de Igrejas (CMI), em Genebra, Suíça, na terça-feira, 08 de novembro. Em entrevista, Weichert ressaltou o papel das igrejas no apoio ao Brasil no momento em que o país procura curar feridas de seu passado doloroso e vislumbra um futuro melhor. A Comissão da Verdade no Brasil, afirma, vai começar a fazer sentido se as igrejas continuarem utilizando os valores da fé na proteção aos direitos humanos.
Weichert é procurador regional do Ministério Público Federal do Brasil. Sua visita à sede do CMI acontece na mesma época em que o projeto de lei da Comissão da Verdade para investigar as atrocidades cometidas no país, incluindo o regime militar de 1964 a 1985, já está aprovada pelo Senado e aguarda a sanção da presidente Dilma Rousseff para ser transformado em lei.

O CMI apóia a implementação desta comissão, o que foi externado, também formalmente, pelo P. Dr. Walter Altmann, moderador do Comitê Central do CMI, à Ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, em recente audiência em Brasília.
Em entrevista à Naveen Qayyum, da equipe de comunicação do CMI, Weichert falou sobre a luta do Brasil pela democracia, o papel das igrejas no apoio às vítimas da violência durante o regime militar e a necessidade atual de iniciar um processo de reconciliação no Brasil.

Quais violações dos direitos humanos ocorreram sob o regime militar no Brasil entre 1964-1985? E por que é necessária uma comissão da verdade?

As violações dos direitos humanos foram da tortura a assassinatos e desaparecimentos à tortura, o que se tornou pior depois de 1968, quando uma força militar mais conservadora ganhou mais influência. Isto resultou na tentativa de eliminar a dissidência pela força, quando os grupos de dissidentes foram tornando-se um movimento em iniciativa principalmente de estudantes. Não temos números exatos, mas cerca de 500 pessoas foram mortas e mais de 50.000 pessoas foram incriminadas como prisioneiros políticos. Ainda hoje não sabemos o número correto de vítimas, porque não houve nenhuma comissão da verdade implementada até agora.
A sociedade brasileira tem o direito de saber. Devemos ser capazes de iniciar um processo no qual podemos manter as instituições democráticas e prestar contas ao povo. Para completar o processo democrático no Brasil, é necessário que desafiemos as forças que existem até hoje em nossa sociedade totalitária. Países como Argentina, Paraguai, Uruguai e Chile já passaram por este processo. Esta é uma oportunidade que devemos aproveitar.

Como você vê o papel das igrejas na luta do Brasil pela democracia?
Igrejas sempre desempenharam um papel especial nas lutas pela democracia no Brasil. Nos anos da ditadura, líderes das igrejas protegeram vítimas de violência através de suas próprias redes. Igrejas de diferentes tradições, incluindo católicos e protestantes, foram uma voz de dissidência durante os anos de ditadura.
Sabemos que, depois de 1979, líderes de Igrejas e advogados reuniram evidências de atrocidades cometidas pelo regime militar. Esta informação foi documentada e enviada de Brasília a São Paulo e, daí, ao exterior. O CMI e o Center for Research Libraries, em Chicago, EUA, foram os principais parceiros nesta iniciativa. O conteúdo foi mantido nos arquivos do CMI, em Genebra. Esta documentação inclui evidência legal significativa de vítimas fornecendo posteriormente, em juízo, informações sobre os autores dos crimes perpetrados.
O pastor presbiteriano Jaime Wright, o Rev. Charles R. Harper, coordenador do programa do CMI sobre direitos humanos na América Latina, o Rev. Dr. Philip Potter, ex-secretário geral do CMI, e outros líderes de igrejas se envolveram com este projeto nos anos 70 e 80.
Naquela época, um relato abrangendo um total de 707 casos legais da era militar foi publicado, em português, sob o título "Brasil: Nunca Mais". Lembro de ter lido este livro quando ainda era adolescente, o que me foi uma motivação para eu escolher a área dos direitos humanos. O livro foi lançado em 1985, poucos meses após o fim do regime militar, e tornou-se um dos best-seller no Brasil.
Esta é uma grande realização das igrejas do Brasil e mostra seu compromisso com a causa dos direitos humanos, que se encaixa bem com os valores de fé por elas proclamados.

Qual a sua opinião acerca da entrega destes documentos feita pelo secretário geral do CMI, Rev. Dr. Olav Fykse Tveit, ao Procurador-Geral da República, Roberto Gurgel, em junho passado, em São Paulo?

A cerimônia na qual o CMI entregou esses documentos ao Procurador-Geral foi um momento emocionante para todos nós. As igrejas passaram por uma longa jornada desde os anos da ditadura e agora estão ajudando a sociedade a enfrentar seu passado e trabalhar juntos para melhorar as instituições democráticas no futuro.
Esta contribuição se manifesta nos autos restaurados, que agora estão disponíveis para consulta pública num site na Internet chamado "Brasil: Nunca Mais Digital". O nome presta homenagem ao livro, detalhando crimes cometidos pelo Estado no período do regime militar.
As igrejas têm um papel importante a desempenhar agora que a Comissão da Verdade foi é aprovada pelo Senado e está na mesa da Presidenta para ser sancionada. O processo só fará sentido se a sociedade civil, incluindo as igrejas, unirem-se a ele, especialmente ajudando as comunidades a compreenderem a natureza da verdade que se busca e a aprenderem lições cruciais da história.
Por Marcelo Schneider/WCC
Mais sobre o CMI: www.oikoumene.org
CMI, Genebra 09/11/2011

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

POLITICA E RELIGIÃO: A disputa eleitoral de 2012

Instituto Humanitas Unisinos (IHU) 24/9/2012
Entrevista especial com Maria das Dores Campos Machado

"Estamos vendo que um grupo de pentecostais está descobrindo que pode se estruturar politicamente em agremiações", diz a socióloga.

Maria das Dores Campos Machado (foto) é graduada em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, mestre e doutora em Sociologia pela Sociedade Brasileira de Instrução - SBI/IUPERJ. Realizou pós-doutorado no Instituto de Desarrollo Económico y Social de Buenos Aires, e leciona na UFRJ.
Confira a entrevista:
IHU On-Line - Os dados do censo apresentam alguma novidade em relação ao mapa religioso brasileiro?
Maria das Dores Campos Machado - Têm duas grandes tendências que são interessantes: a expansão dos evangélicos e o declínio dos católicos, porque é primeira vez que cai o número absoluto de fiéis da Igreja de Roma. O outro dado importante é o crescimento dos evangélicos que falam que não têm denominação. Isso é uma novidade, porque já conhecíamos o católico não praticante, mas agora aparece a figura de um ator religioso evangélico que diz não estar vinculado a nenhuma denominação, apesar de ser evangélico. Então, isso nos dá a impressão de que os vínculos com as denominações evangélicas, que eram muito mais acentuados do que entre os católicos, também estão se afrouxando. Na medida em que os evangélicos vão crescendo, eles também ficam mais parecidos com a sociedade e com os católicos, ou seja, se dizem evangélicos, mas não praticam, não conhecem a doutrina. Da mesma forma que existe um hiato entre o que fala o Vaticano, o que fala a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB, e o que fazem os católicos, pode igualmente crescer um hiato entre os evangélicos. Nesse caso, os pentecostais estariam "se abrasileirando", se tornando mais parecidos com a população brasileira, e perdendo um pouco o caráter exemplar. Quando o grupo religioso é menor, o controle sobre os fiéis é muito maior. Quando o grupo cresce, a capacidade de controle sobre ele se torna menor, e a tendência também é haver um afrouxamento dos vínculos.

IHU On-Line - Quais são as características e as razões dessa transformação do campo religioso brasileiro em curso?
Maria das Dores Campos Machado - Os grupos evangélicos são muito mais fragmentados e se, por um lado, eles têm mais dificuldades em termos de capacidade de poder na sociedade, por outro, a fragmentação permite uma agilidade e faz também com que eles consigam uma maior penetração dentro de diferentes grupos sociais. Diante desse quadro, percebemos que existe aí uma crise da Igreja Católica, que não é apenas uma crise nacional como também uma crise no âmbito internacional, por causa de uma dificuldade muito grande de adaptação ao contexto moderno. Isso vai desde a questão da consagração de mulheres, que não é admitida, à dificuldade de aceitar, por exemplo, o uso de contraceptivos artificiais - e mesmo o divórcio. Num contexto onde há um crescimento do feminismo, dos movimentos homossexuais, a Igreja Católica parece estar "meio de costas" para esses movimentos sociais e rejeita o diálogo com eles. Enquanto isso, pequenos grupos religiosos se aproveitam não só dessa dificuldade da Igreja, mas também se organizam de outras maneiras. A Igreja Católica tem uma estrutura muito complicada no sentido de se organizar em paróquia, porque qualquer mudança requer um controle muito grande do Vaticano, enquanto que no mundo evangélico as igrejas surgem na garagem de uma casa ou num galpão. Elas aproveitam "um vazio" que é, ao mesmo tempo, um vazio do Estado que não está presente, e um vazio deixado pela Igreja Católica propriamente dita.
Católicos x evangélicos
Recentemente percorri a Baixada Fluminense, e num bairro encontrei 48 igrejas, sendo que 47 eram templos evangélicos e um era católico. Esses dados demonstram um desequilíbrio muito acentuado em função das características de cada um desses grupos. Como a Igreja Católica enfrenta inúmeros desafios, os evangélicos conseguiram um espaço muito grande para crescer. Eles têm uma enorme plasticidade e são capazes de assimilar tendências de diferentes campos, além de conseguir ressignificar e dar um novo tratamento a novas bandeiras. Além disso, eles conseguem introduzir novas visões de mundo, como a teologia da prosperidade, que está relacionada com os valores norte-americanos.
Então, os evangélicos conseguiram introduzir junto às camadas populares uma concepção de mundo que é muito mais individualista e muito mais afinada com o neoliberalismo. É uma concepção de mundo que aposta na capacidade do indivíduo resolver os seus problemas, desde que aja com perseverança, com fé e atue de forma a conseguir as coisas: se ele fizer acordos com Deus, se apostar nisso, poderá conquistar o seu sucesso.
Individualismo
Veja bem, são grupos que estão trazendo elementos para as classes populares que até então estavam mais presentes na classe média brasileira, ou seja, a ideologia do individualismo. Entretanto, são individualismos diferentes. Nas classes médias, o individualismo entra através de diferentes elementos da cultura da psicanálise. Nas classes populares, esse individualismo chega através do pensamento religioso. Para as mulheres, isso é muito importante, porque a maioria dos pentecostais pobres é do sexo feminino. Então, a ideologia reforça a capacidade do indivíduo, ou seja, a mulher pode conseguir dinheiro, pode trabalhar, tem que desenvolver as suas habilidades, tem que ser autônoma. Com esse discurso, cria-se uma disposição nas mulheres pentecostais; é como se estivessem dando uma justificativa no plano ideológico, mas é uma justificativa diferente, por exemplo, da justificativa do feminismo. O feminismo também tem toda uma ideologia favorável ao trabalho feminino, mas as mulheres precisam trabalhar para elas terem autonomia, para elas se sentirem bem, para elas conhecerem, para elas saberem das coisas. Por sua vez, o discurso religioso estimula as mulheres a saírem para a esfera pública por outro motivo, porque a mulher precisa sustentar os filhos, sustentar a casa. Não se trata tanto da vontade feminina ou da autorrealização como sujeito, mas da possibilidade de as mulheres poderem prosperar.

IHU On-Line - É possível estabelecer alguma relação entre os dados do censo em relação à religião com o cenário político atual? O declínio das religiões tradicionais e a ascensão dos evangélicos podem se manifestar na representação política?
Maria das Dores Campos Machado - A força dos grupos políticos evangélicos é inegável. Eles têm hoje uma capacidade de influência muito maior do que tinham na década de 1980, e isso tem a ver com a capacidade de mobilização.
Quais são os movimentos sociais que hoje colocam as pessoas na rua? O Movimento dos Sem Terra - MST, o movimento Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros - LGBT, e o movimento pentecostal. São esses os três que conseguem fazer grandes manifestações. Os movimentos pentecostais mobilizam as pessoas nos seus templos e nas grandes paradas, como a Parada para Jesus, e os grandes shows gospel. Essa capacidade de mobilização tem feito com que eles ganhem uma projeção política e uma capacidade de barganha junto aos políticos. De olho nesse crescimento, há décadas os partidos abriram as portas para esses atores. Então, a ideia é chamar o pastor para se candidatar, não só para ele conseguir se eleger, mas também porque ele trará votos para a legenda. Existe aí o uso pragmático das instituições políticas com relação às religiões. Não é só a religião que quer entrar na esfera pública ou os religiosos que querem prosseguir na política, mas as instituições políticas convocam os grupos religiosos para a política.
Estado x religião
Então, quando o Estado convoca as igrejas ou faz uma política pública e chama uma igreja para participar da implementação, ele está legitimando a ação dessas instituições. A Pastoral da Criança, uma política pública para as crianças, é desenvolvida há vários anos pela Igreja Católica. Quando o PT e a Dilma elaboram uma política para combater o crack, o que acontece? A fundação de comunidades terapêuticas por parte de Igrejas. Então, em vez de o Estado tomar para si a tarefa de cuidar do dependente de droga, o que faz? Dá dinheiro para as igrejas resolverem esse problema. Quando o Estado faz isso, ele convoca as instituições para fazerem política. Por isso tem crescido não só a participação dos evangélicos nas causas legislativas, mas também as parcerias com o governo têm crescido de forma acentuada. Essa é uma demanda legítima deles na medida em que a Igreja Católica e os espíritas participam das políticas públicas.
Um dos grandes problemas dessa atuação religiosa na esfera social é que as pessoas, ao receberem os benefícios, não os percebem como sendo uma ação do Estado, e atribuem as políticas públicas à religião. Isso acaba por favorecer mais ainda o grupo religioso. Percebemos que, além desse crescimento do número de parlamentares com identidade evangélica no Congresso, nas diferentes instâncias legislativas apoia-se a atuação das igrejas, um pouco como coronéis, negociando com os executivos ou com os candidatos o apoio político nas campanhas eleitorais. É o que está acontecendo agora em São Paulo.

IHU On-Line - Como vê a relação entre partidos políticos e religiões? O que as religiões agregam ou desagregam aos partidos? O que significa, no Brasil, o trânsito interpartidos e o trânsito inter-religioso?

Maria das Dores Campos Machado - Esse deslocamento das fronteiras entre os partidos políticos e as igrejas não é novidade. Basta considerar a existência do Partido Democrata Cristão. Quando analisamos a fundação do PT e o crescimento dele no Brasil como um todo, fica claríssima a importância da Igreja Católica, principalmente com os cristãos ligados à Teologia da Libertação.
O que talvez esteja incomodando é que os partidos estão sendo hoje, de certa forma, disputados pelos evangélicos. Então, por um lado têm partidos que contam com bispos e pastores em seus diretórios, como o Partido Social Cristão - PSC, que tem dezessete representantes no Congresso Nacional, sendo doze deles da Assembleia de Deus. O vice-presidente do partido é Everaldo Dias, um pastor da Assembleia de Deus do Rio de Janeiro, que foi responsável pelo programa Cheque Cidadão, no governo Garotinho. A máquina do PSC está nas mãos da Assembleia de Deus. Por outro lado, um grupo dessa denominação conseguiu recentemente o registro do Partido Ecológico Nacional - PEN, e outro grupo quer criar o Partido Republicano Cristão - PRC.
Estamos vendo que um grupo de pentecostais está descobrindo que pode se estruturar politicamente em agremiações. Eu já entrevistei muitos deputados federais e estaduais, principalmente do Partido Democrático Trabalhista - PDT, e eles têm muito preconceito com os candidatos religiosos. Os que estão no PT se queixam muito disso também. A própria Marina Silva demorou muito a assumir a sua condição religiosa por causa da discriminação no interior dos partidos. Então, embora os partidos abram a possibilidade da candidatura para os integrantes de instituições religiosas, eles as discriminam.
Por um lado, a Universal teve uma eleição - creio ser a de 2002 -, em que o Partido Liberal - PL se formava dentro da Igreja da Abolição, no Rio de Janeiro. No início dos anos 2000, em sete estados diferentes o PL era dirigido por pastores da Universal. Depois, com o esvaziamento do PL, criou-se o Partido Republicano Brasileiro - PRB, que hoje também está sendo dirigido por pastores e bispos da Universal. Eles não foram para a política partidária, mas eles estão procurando agremiações partidárias para ter mais destaque, seguir a orientação de seus líderes e ter mais poder. Eles estão criando esses espaços de atuação na política nacional.
Nenhum deles criou um partido evangélico propriamente dito. É sempre um partido cristão, ou procurando ficar dentro desse aspecto. Em uma disputa majoritária, se enfatizar a identidade religiosa, pode criar obstáculos para o bom desempenho nas eleições. Na eleição majoritária existe um amplo leque de apoio, e é isso que possibilita o sucesso de Russomanno em São Paulo, porque o PRB está na mão da Universal, porém o Russomanno é católico. A Universal apostou três eleições no Rio de Janeiro com Marcelo Crivella para cargo majoritário. Ele foi candidato a prefeito e perdeu; foi candidato a governador em 2006 e perdeu; foi candidato a prefeito de novo em 2008 e perdeu. Isso porque ele sempre estava associado à imagem de bispo da Igreja Universal. Ele é pentecostal, é sobrinho do Edir Macedo.
Russomanno é um candidato católico e que está em um partido com lideranças pentecostais. Então, tem uma novidade no ar. É quase como se ele estivesse experimentando uma nova estratégia: aliar-se com os evangélicos. Além disso, ele não é um católico qualquer; é um que estava trabalhando dentro da Record. É um católico que perdeu as eleições em 2010 pelo PT para deputado federal. É um católico que também percebe que é preciso fazer alianças. A novidade que tem aí é um pouco nesse sentido: os grupos evangélicos estão procurando agremiações partidárias onde eles possam agir mais livremente conforme seus interesses.
IHU On-Line - Como explicar o fenômeno Russomanno em São Paulo?
Maria das Dores Campos Machado - Há uma série de fatores que explicam a popularidade dele. Alguns elementos da biografia de Russomanno são importantes: é alguém que estava na mídia falando sobre algo muito importante, que é a defesa do consumidor. Na medida em que o brasileiro está sendo estimulado a se transformar em um consumidor, tem alguém que o defenda. É um discurso que casa muito bem com essa expectativa de ser consumidor, prosperar, de conseguir um lugar social na sociedade brasileira. Ele tem exposição na mídia e conta com o apoio tanto na Igreja Católica como nas evangélicas. Claro que tem de se considerar que o segmento evangélico é bastante heterogêneo e que nem todo mundo o apoia. Tem um braço da Assembleia de Deus apoiando o Serra, outro apoiando o Gabriel Chalita. Os evangélicos estão divididos. Porém, existe um esforço feito pela liderança do PRB no sentido de atrair os evangélicos para o apoio a Russomanno.
IHU On-Line - Os votos dos eleitores do PT, que tinham uma expectativa de ascensão social, podem ser transferidos para partidos ou políticos que têm o discurso de Russomanno?
Maria das Dores Campos Machado - Pela citada pesquisa de opinião pública em São Paulo, parece que isso está acontecendo. Parece estar havendo uma transferência de votos. Tanto é que a Marta Suplicy entrou na disputa para tentar reverter a situação do PT em São Paulo.
Desde a eleição de 1998, a Universal começou a deslocar as posições políticas do Partido da Social Democracia Brasileira - PSDB para o PT no sentido de ter uma política de aproximação com este último. Algo que valeu para a Universal uma vitória, não só porque o Lula foi eleito, mas também porque a Universal teve conquistas significativas. Não é à toa que a Rede Record de Televisão é a segunda maior rede de televisão brasileira. Além disso, Edir Macedo e a Igreja Universal têm sido poupados de investigações em relação às denúncias de aviões presos com dinheiro, malas com dinheiro nas mãos de deputados em troca de apoio político.
Alianças - PT e Universal
Há um jogo de alianças de alguns grupos pentecostais em desenvolvimento, grupos que foram muito significativos nos últimos anos. Veja que desde a eleição do Lula o "voto do PT" não era só das comunidades que eles ajudaram. Para o PT chegar ao governo, foram feitas várias transformações não só no seu projeto como também no conjunto de alianças que foram sendo costuradas ao longo desses anos. Isso é interessante porque, ao mesmo tempo em que a Universal perde fiéis, ela ganha enquanto grupo, enquanto empresa, ou seja, o grupo ganha enquanto força política.
As demais igrejas acabam copiando as estratégias da Universal em relação aos partidos políticos. Da mesma maneira foi copiada aquela tendência de dividir os votos e lançar candidaturas por bairros ou por igrejas. As maiores igrejas criam assessoria política, criam comissões para poderem escolher os seus candidatos, criam escolas de formação de liderança política, ministram oficinas (workshops).
IHU On-Line - Num Estado laico, como admitir essa vinculação entre política e religião, apesar de o Brasil ter uma religiosidade característica?
Maria das Dores Campos Machado - O Brasil tem o valor da laicidade, mas na verdade o Estado não age como um Estado laico, e os grupos religiosos entendem a laicidade de forma muito peculiar. Eles acham que têm o direito de participar do Estado laico.
IHU On-Line - E qual é o limite?
Maria das Dores Campos Machado - A sociedade é que tem que definir. Os movimentos sociais precisam pressionar. As instituições precisam estabelecer parâmetro. Não é uma questão fácil, mas é uma questão que teremos de enfrentar nos próximos anos.
Quando um candidato religioso se opõe à questão da discriminação da homofobia, ele está dizendo: "Nós queremos falar que o comportamento homossexual é pecado". Nesse caso, o Estado vai dizer que as igrejas não podem falar isso? O Estado não pode fazer isso. Você percebe? É uma questão complexa. Então, vamos ter que estabelecer limites de onde a liderança religiosa pode falar, e o que é que ela pode falar. O que se entende por discriminação, por exemplo? Essa é uma questão que implica debates. E é compreensível que o movimento LGBT fique ansioso, angustiado, se sentindo injustiçado e precisando resolver a questão, mas também é compreensível que os pastores se sintam ameaçados, porque esses são temas novos, e a mentalidade não muda de uma década para outra.
A questão da homossexualidade saiu do código das doenças muito recentemente. A própria ciência tratava isso com o discurso da anomalia. Essa é uma discussão que leva tempo para ser digerida, para transformar as mentalidades e as próprias ideias dentro dos grupos religiosos.
IHU On-Line - Quais são as religiões que exercem maior influência na política brasileira atualmente?
Maria das Dores Campos Machado - A Igreja Católica sempre teve um poder muito grande, mas a forma de exercer esse poder é diferente, ou seja, a maneira de estar na política é diferente entre católicos e evangélicos.
Os evangélicos têm apostado na transferência de um capital que já existe para o campo político: o capital da liderança espiritual, ou seja, o pastor, que tem uma influência muito grande, possui uma idoneidade, e as pessoas acreditam nele. Essa estratégia tem sido bem sucedida. Eles lançam candidaturas de pastores e missionários que já têm popularidade junto dos fiéis. Então, você já tem aí um quadro diferente. No Parlamento, é possível identificar facilmente quem são os evangélicos, enquanto que os católicos não, porque eles são leigos. Têm poucos padres e sacerdotes no Congresso Nacional. Nesse sentido, o monitoramento das igrejas evangélicas é maior. Eles realmente controlam os votos. Os votos da Universal sempre foram votos fechados, e os outros partidos não opinavam; são eles que falam em quem vão votar.
Conservadorismo
Por sua vez, a Igreja Católica não precisa ter sacerdotes no Legislativo, porque ela tem outras formas de pressão. Ela pressiona através do Vaticano, do Núncio Apostólico; em Brasília, ela o faz através da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB. Pressiona através do presidente da República, através de concordata. São formas diferentes de interferir na política direta ou indiretamente. A respeito disso, uma novidade é que, se no início dos anos 2000 se tinha uma aliança religiosa com o PT em torno da ética na política - bandeira mais progressista e ligada à esquerda -, o que aconteceu, principalmente a partir do segundo governo Lula, depois dos escândalos do mensalão, é um deslocamento da legenda política desses grupos para o campo conservador. Então, há hoje um ativismo religioso conservador, com uma agenda centrada na família, no combate ao aborto e à homofobia e todas às demandas do movimento LGBT. Isso não acontece só no campo evangélico, mas também no católico, com o crescimento do movimento de renovação carismática católica.
Estou fazendo uma pesquisa no campo católico sobre a formação de liderança tanto em São Paulo como no Rio de Janeiro. Tem chamado a atenção o fato de os carismáticos, por exemplo, em São Paulo, estarem usando o lema "Fé e Política", que foi um instrumento fundamental na formação de lideranças nas Comunidades Eclesiais de Base - CEBs e do PT. Eles têm usado para formar parlamentares (líderes) carismáticos. Então, tais lideranças têm essa bandeira de defesa da vida, combate ao uso de embriões para pesquisa, combate à eutanásia. Estão com as bandeiras e com a agenda do Vaticano e de Santa Sé. Estamos vendo o deslocamento de um ativismo que está bem alinhado com o conservadorismo.
Mudança política
É nesse sentido que incomoda muito o crescimento da campanha do Russomanno. Ela incomoda e é curioso, porque São Paulo também é um estado onde o Opus Dei é muito forte. Entretanto, eles estão meio perdidos e não sabem bem o que está acontecendo. Por outro lado, a elite paulista é conservadora, da mesma forma que a classe média. Todavia, nos últimos anos teve uma certa hegemonia do pensamento de esquerda em São Paulo. No entanto, está nascendo uma liderança que foge completamente a esse grupo que estava sendo responsável pelo controle político. Então, por exemplo, tem o Geraldo Alckmin que é do Opus Dei, mas tem também lideranças do PSDB, como o Fernando Henrique Cardoso, que não tem religião. Trata-se de um jogo de forças que serve de contraponto. Agora entra um ator (Russomanno) aí que tira tudo do lugar, todas as peças que já eram conhecidas, e introduz elementos que, até bem pouco tempo, não eram vistos com bons olhos. Basta lembrar que, na primeira metade dos anos 1990, o Edir Macedo estava na prisão acusado de charlatanismo.
IHU On-Line - Como vê o uso dos templos para apresentar candidatos? Nesse sentido, como as igrejas se tornaram celeiros de votos?
Maria das Dores Campos Machado - As igrejas não utilizam apenas o templo. Distribuem DVDs pelos correios também. Uma amiga recebeu um DVD defendendo a candidatura do Eduardo Paes. Quer dizer, são acionados vários mecanismos. Então, quem não vai ao templo recebe DVD em casa, recebe torpedo, e-mail, mensagens no Facebook.
A peculiaridade do templo é o fato de que ali dentro estão concentradas pessoas com muita carência de espaços para debates, para conversa e para discussões sobre qualquer tema. A igreja é uma alternativa e quem está ao lado do candidato é uma pessoa que tem reconhecimento da comunidade. Então, é alguém que está dizendo: "Vote nesse aqui, porque nele eu confio". A Assembleia de Deus de Santo Amaro apoiou o Russomanno nos templos, e os pastores falaram para os fiéis que o Gilberto Kassab tinha cobrado uma multa de 5 mil reais, porque eles colocaram o nome do candidato na porta da igreja, e isso estava em desacordo com as normas da prefeitura.
Quando mais baixo o nível de escolaridade das pessoas, menos elementos elas têm para formar opinião. Então, o que acontece? A pessoa vota de acordo com as indicações que recebe na igreja. Agora, dentro das regras democráticas ou dentro da nossa legislação, isso não é permitido. Mas quem controla? Existe o Tribunal Regional Eleitoral para fiscalizar, e isso tem de ser cobrado, tem de ser multado.
IHU On-Line - O que é possível vislumbrar para as próximas eleições municipais, considerando a relação entre política e religião?
Maria das Dores Campos Machado - A identidade religiosa está sendo uma dimensão acionada pelos políticos e pelos grupos religiosos. Ela está sendo usada como instrumento, e não podemos dizer que ela irá determinar o voto.
Quando o Russomanno católico se junta com o partido dominado pelos líderes da Universal, ele faz uma mistura onde a identidade cristã prevalece. Também têm crescido as alianças entre carismáticos e pentecostais no Congresso Nacional. Estamos conduzindo uma pesquisa na área e entrevistamos recentemente uma assessora evangélica. Ela nos contou que acompanha um padre católico em todos os gabinetes para fazer campanha contra o aborto e pressão aos parlamentares. Perguntamos por que ela acompanha o padre, e ela responde: "Porque assim nós agradamos tanto aos evangélicos como aos católicos". Então, nesse sentido, pode estar acontecendo um ordenamento novo, em que os conservadores aliados irão colocar um projeto cristão acima de um projeto que seja da Assembleia de Deus, que seja da Universal, que seja da presbiteriana etc.
Percebemos que os grupos conservadores estão se aliando não só no Congresso Nacional, mas também na sociedade civil. No plano do Congresso Nacional, os evangélicos fizeram uma parceria com a CNBB e mudaram o nome do Fórum Evangélico Nacional de Ação Social e Política, em abril de 2011, para Fórum Nacional Cristão de Ação Social e Política. No plano da sociedade civil, foi criado um movimento no Brasil chamado "Em Cristo", que reúne pastores pentecostais e lideranças carismáticas.

Esse movimento já fez vários encontros nacionais e tem uma liderança forte em São Paulo, que é carismática, e a CNBB acompanha e monitora isso muito de perto. Então está acontecendo algo que pode ser pensado como uma saída no campo conservador, que serve de contraponto para as tentativas ecumênicas da década de 1960, início de 1970. A aproximação de hoje, diferentemente da década de 1960, é muito mais em torno de plano espiritual e valores morais cristãos. Então, têm coisas acontecendo na sociedade brasileira que teremos de enfrentar não só nessas eleições, mas nas próximas também, no meio dessa força conservadora.